Cerca de quarenta associados participaram das aulas e das dinâmicas em grupo, que objetivaram a construção de um pensamento crítico e humanitário acerca das relações entre a criança, a família e o ambiente escolar.

Dando continuidade ao Curso de Atualização em Desenvolvimento e Comportamento da Criança, a Cooperativa dos Pediatras do Estado do Ceará realizou, nos dias 21 e 22 de setembro, o terceiro módulo da rica programação construída especialmente para seus cooperados. Os encontros foram mediados pelas pediatras Dra. Ana Escobar e Dra. Ana Cecília Sucupira, que protagonizaram importante debate sobre os mais frequentes problemas de comportamento na infância, os desafios para o aprendizado da criança na fase escolar e sobre um dos temas que mais tem mobilizado a classe médica em todo o mundo: a disforia de gênero.

Durante a noite de sexta-feira e a manhã de sábado, foram expostos novos conceitos e metodologias para diagnóstico de transtornos comportamentais, alimentares e de aprendizado, além de analisados casos clínicos reais para a desconstrução do processo de “medicalização dos problemas sociais”, recorrente nos dias de hoje.

Contexto Social: o impacto das relações no comportamento da criança

Dra. Ana Sucupira reforçou, em mais de quatro horas de aula, a importância da análise minuciosa do contexto social durante o processo de avaliação do comportamento da criança. De acordo com a pediatra, “o primeiro passo para um diagnóstico real e efetivo é conhecer o paciente, o ambiente em que ele está inserido, bem como as relações que se estabelecem ao seu redor”. Para ela, nem sempre o problema surge da própria criança, mas sim da forma como o mundo lida com ela.

A criança em idade escolar: desafios na família e na escola

“É durante a fase escolar que surgem os verdadeiros desafios e as maiores cobranças em torno da criança, logo os principais problemas e transtornos de comportamento”, aponta Dra. Ana Sucupira. E para o pediatra, de acordo com a médica, o segredo está em saber como abordar esse paciente durante o acompanhamento clínico. ”Nós precisamos saber de onde surgem as queixas – da escola ou da família – e ouvir o que a criança tem a dizer”, completa Dra. Ana, que destaca a necessidade do ensino das metodologias de avaliação do desenvolvimento entre pediatras, inclusive residentes.

Banalização dos transtornos

Hiperatividade, déficit de atenção e timidez são exemplos de problemas de comportamento imputados à criança pela própria família e pela escola mesmo antes do diagnóstico de um profissional. “Colocam o problema na criança e não analisam o meio em que ela está inserida”, afirmam Dra. Ana Sucupira e Dra. Ana Escobar. Para as pediatras, é fundamental perceber se os distúrbios surgem, de fato, por demandas da criança ou se por lacunas de ensino e educação por parte de pais e professores. “Nem sempre eles estão com algum problema, por isso é indispensável um olhar e uma escuta afiada na hora da consulta, seja por pediatras gerais ou por especialista em desenvolvimento”, destacam.

Relações Contemporâneas: a ansiedade como base

Inúmeras são as razões e as causas de transtornos comportamentais entre crianças e adolescentes, mas é inquestionável o impacto da ansiedade na vida e nas relações infanto-juvenis hoje em dia, tanto que este foi o tema de abertura da aula ministrada pela professora Dra. Ana Escobar. Segundo a pediatra, “a ansiedade pode ser um dos fatores preponderantes no surgimento de transtornos alimentares e comportamentais atípicos”.

“São muitas cobranças e expectativas em cima de pessoas que estão em fase de descoberta e crescimento. Isso gera um ambiente de ansiedade que pode afetar diretamente o comportamento das crianças, deflagrando um transtorno ou sendo o próprio problema em si”, acrescenta Dra. Ana Escobar.

Disforia de gênero: um território em descoberta

Desafio entre pediatras, famílias e escolas, a disforia de gênero também foi pauta de debate durante o encontro. Por ser um tema que tem ganhado maior destaque agora, foram discutidos pontos relativos tanto à parte biológica quanto social da questão, a exemplo da correta utilização dos termos e conceitos relacionados aos transgêneros. E, claro, reforçado o papel do pediatra no acompanhamento desses casos.

“O pediatra geral é aquele que, normalmente, recebe primeiro a criança para fazer uma avaliação do seu estado. De acordo com a avaliação, esse pediatra vai acionar as especialidades médicas e paramédicas que são necessárias para acompanhá-la. Assim, a gente vai garantindo para cada criança o melhor atendimento possível”, diz Dra. Ana Escobar. “A gente está conhecendo e entendendo melhor essa questão da disforia. E, para isso, a comunidade média precisa se atualizar sobre esse tema e entender que são pessoas que merecem muito nossa atenção”, finaliza.

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